quarta-feira, 25 de agosto de 2010
A menina que desejava
Só o que separava Maria Eduarda do brinquedo de seus sonhos era uma folha de vidro - e R$ 700. Na vitrine de uma loja ao lado de sua casa resplandecia o objeto de desejo da menina e, junto com ele, seus pequenos olhos. Desde o primeiro dia que o viu, Eduarda começou a juntar cada centavo que passava por suas mãos. Guardava em um saco plástico porque achava um desperdício comprar um cofre.
A garotinha, porém, sabia que levaria anos para conseguir a quantia. O caso era que o seu desejo era urgente. E se outra pessoa levasse o brinquedo? E se, quando conseguisse o dinheiro, não tivesse mais idade para brincar?
Pensou em começar a trabalhar, mas quem contrataria uma menina de oito anos? O Estatuto da Criança e do Adolescente proibia. No entanto, ainda que alguém desobedecesse, quanto ganharia? Provavelmente uma quantia irrisória.
Cada vez que passava diante da vitrine, Eduarda sentia algo diferente. Tinha dias que, esperançosa, enchia-se de sonhos e fazia os planos mais mirabolantes que possam ser criados na cabeça de uma criança. Em outros, ficava irritada por ter de passar de segunda-feira a sexta-feira, obrigatoriamente, em frente à mercadoria exposta, já que não tinha outro caminho para ir à escola.
Desejava o brinquedo com tanta intensidade que, às vezes, tinha vontade de quebrá-lo só para extinguir de vez a possibilidade de tê-lo. Queria roubá-lo ou mudar-se da casa ao lado dele. Irracional, imaginava-se jogando uma pedra no vidro da loja e saindo correndo.
Maroca, já não via graça em outros brinquedos. Até pular elástico com as vizinhas, que antes a deixava empolgadíssima, agora parecia ser chato. A menina sentia-se envergonhada pois a mãe ensinara que ela não deveria ter apego às coisas materiais. "Existem crianças que sequer têm o que comer. Seja grata à Deus por tudo o que você tem", dizia. Todavia, Maria Eduarda mão conseguia deixar de desejar.
Enquanto esperava pelo dia em que seu desejo finalmente se realizaria - (Será que ele chegaria?) - a menina resolveu inventar novos sonhos. Inventou, por exemplo, que queria ganhar o concurso de talentos do colégio e que aprenderia a tocar violão. Depois, que entraria na Universidade e que conseguiria uma bolsa de estudos fora do País. E assim ela seguiu pela vida inventando sonhos e mais sonhos, uns até bem maiores que aquele.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
O Passarinho
Passarinho gostava de voar em lugares que já conhecia. Era assim: ia ao local devagarinho, pisando o solo com as perninhas delicadas.Passeava, passeava. De vez em quando, ensaiava um pequeno voo. Quando sentia que o chão era fofo e sem desníveis, demorava-se um pouco mais no ar. Mas seus voos costumavam ser breves. Circulava e circulava. Passarinho não gostava de ver tudo pequenininho lá em baixo. Gostava de observar de perto as pessoas, as árvores, os cachorros, sempre desengonçados.
Passarinho também não gostava de passar muito tempo sobrevoando o mesmo lugar. Mas quando voava para estudar novos territórios, acabava voltando para saber as novas histórias dos locais que já conhecia.Passarinho gostava mesmo era de cantar. Quando cantava, lavava a alma. E se lavasse outra além da sua, emocionava-se. Depois de cantar, Passarinho gostava de abrigar-se em uma árvore-sofá e receber um cafuné. Passarinho inclinava o pescoço para frente e eriçava as penas, todo manhoso.
Certo dia, ao pisar sobre um terreno novo, Passarinho teve a impressão de que há muito já o conhecia. Ainda quis estudar mais o solo, voar baixinho, mas a brisa leve lhe convidava para voos mais altos. Não conseguiu resistir. Sentiu que ali podia cantar o quanto quisesse e não hesitou. Encheu o pulmão dos novos ares - e como lhe entravam suaves pelas narinas - e cantou e cantou. E a música que saia de seu bico ora alegrava os habitantes do lugar, ora os consolava.
Passarinho sentia-se em casa. Quanto mais alto voava, mais avistava promessas de belas paisagens. Ia mais e mais longe. O vento passava sob e sobre suas asas e Passarinho já não tinha medo de sobrevoar montanhas e mares. Ele agora sabia o que era liberdade e, a cada bater de asas, sentia-se mais seguro.
Até que, de repente, o vento mudou de direção. Passarinho perdeu a estabilidade e estatelou-se no chão. Enquanto junta seus pedaços, Passarinho pia triste. Passarinho voltou a ter medo de voar.
OBS.: Foto retirada do site : belasmensagens.zip.net
terça-feira, 22 de junho de 2010
Isso não te toca?
Sensibilizada com a situação, a comerciante Ana Lúcia Silva Maciel pagou roupas limpas e um banho para "Bronze". "Da primeira vez que eles vieram, disseram que não iriam levá-lo porque ele estava sujo. Resolvi pagar alguém para dar um banho nele e comprei roupas novas para ele usar. Por volta das 16 horas (de ontem) liguei para a Samu novamente, mas até agora (17h45) ninguém veio", contou. Ana Lúcia afirmou que a atendente da Samu garantiu que "Bronze" seria removido assim que houvesse uma ambulância disponível, mas até o fechamento desta edição ele permanecia no mesmo local.
Diante do sofrimento do morador de rua, a comerciante se disse indignada: "Principalmente com o governo. O que está acontecendo com ele é um desrespeito com um ser humano. Nenhum de nós merece morrer à míngua, no meio da rua, diante de pessoas que passam e viram o rosto para o outro lado". Assim como ela, a vendedora de bombons Adriana da Conceição Pereira também se disse revoltada com o ocorrido. Ela contou que "Bronze" era um homem trabalhador e tinha uma banca em que vendia castanhas. "Um dia a polícia levou a mercadoria e os documentos dele e ele passou a viver na rua", afirmou. De acordo com Adriana, ele não tem parentes próximos e conta apenas com doações para se manter. A vendedora declarou ainda que o Samu foi ao local, mas os funcionários teriam se recusado a examiná-lo porque ele era um morador de rua.
SESMA
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) alegou que o caso do morador de rua é uma questão social e que ele não precisava de remoção hospitalar ou atendimento de urgência. A Sesma afirmou também que "o trabalho do Samu é realizar o primeiro atendimento em casos de urgência e posteriormente fazer o encaminhamento ao hospital, o que não se aplicava ao caso do morador de rua".
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Páginas caleidoscópicas
Histórias que começam e terminam no primeiro parágrafo. Assim tem sido a minha vida nos últimos tempos: um amontoado de páginas soltas de livros escritos pelo Cósmos.Obs.:Imagem retirada de http://ricfabiao.wordpress.com/2008/01/14/caleidoscopio/
domingo, 23 de maio de 2010
Saudades da Du Carmo
Que nos deixou assim com este buraco no peito?
Que nos acostumou mal com tanto carinho e dedicação
E de repente foi embora e já não volta mais?
...
Lembra, Du Carmo, quando nós brigávamos pela sua atenção?
Nós dizíamos que você gostava mais de um do que de outro
Mas nosso ciúme era só uma forma de mostrar o quão importante você sempre foi
Você sabia disso, não sabia?
Só me diga que isso ficou claro para você...
Porque não é do ovo frito que você fazia questão de preparar todas as vezes que percebia que seu "eleitorado" não tinha gostado do prato principal que eu vou sentir falta, Du Carmo.
É de você...
Dos seus braços sempre abertos para nos receber,
Do jeito meio ranzinza que você reclamava de certas coisas
Da sua forma única de dizer certas palavras
É de você, Du Carmo...
É difícil imaginar que quando eu chegar na casa da vovó
Não vou te encontrar...
Você e seu lencinho na cabeça
Você e sua interjeição: "Menina, menina"
Ah Du Carmo... seja onde estiver, esteja feliz
Pois se a vida não lhe reservou tantas alegrias
Mas você foi incansável em fazer nossos dias melhores
E ninguém mais que você merece descansar em paz.
terça-feira, 11 de maio de 2010
A corda
Chegou na Universidade? Muito bem, aproveite! Você é uma privilegiada, sabia? Muitos queriam estar em seu lugar. O que? Você seria uma privilegiada se todos pudessem ter acesso à Universidade? Você ainda está nessa? Quando vai perceber que isso não passa de uma utopia? Agora se concentre na aula que semana que vem tem prova. Sua nota deve ser a maior da turma.
Hora do intervalo. Tome uma vitamina. Você precisa estar com a resistência alta para não adoecer. Sem falar que você malha, não é mesmo? Se você não se alimenta bem, não conseguirá desenvolver seus músculos. Você sabe que o padrão de beleza hoje são corpos muito bem divididos. Eu sei que você está sem paciência para a academia... Mas eu também nunca lhe disse que seria um pedacinho da Disney. É bem como o seu instrutor diz: faça cara feia mas tenha um corpo bonito. Ah... Isso me fez lembrar que você nunca mais foi ao salão de beleza. O que aconteceu com os seus cabelos? Estão cheios de pontas duplas! E as suas unhas? Andou roendo de novo, não é?! É por isso que você não pode ficar muito tempo sem ir ao salão. Eu sei, a grana anda curta... Mas faça um esforço para economizar. Vai valer a pena, prometo!
Meio dia. Hora de almoçar. Engula a sua comida, não vê que está atrasada? Tome o seu banho, troque sua roupa, capriche! Você sabe que não pode ir trabalhar de qualquer jeito. Sabe que boa parte da imagem que seu chefe, seus colegas de trabalho e seus entrevistados têm de você se deve à sua maneira de se vestir. Apresente-se como uma pessoa elegante, mas não exagere na formalidade. Afinal, você também precisa passar uma imagem jovial. Esqueça esse céu azul aí fora. Deixe-o para o final de semana. Se chover? Se chover, choveu, ora. Vai querer controlar os fenômenos da natureza?
Concentre-se. Faça o que o seu chefe mandar e um pouco mais. Se escutar desaforo, tudo bem também. Todo chefe é assim. Se precisar passar do seu horário, não tem problema. Isso é normal, sobretudo para jornalistas. Foi a profissão que você escolheu, não foi? Desde sempre você já sabia que ia ser assim, não sabia? Está arrependida? Ah... Só queria ter seus direitos trabalhistas respeitados? Preste atenção numa coisa: Você NÃO pode mudar o mundo. Faça o seu melhor e fique satisfeita por estar onde está. Pense: quantas pessoas não gostariam de estar no seu lugar? E você aí reclamando, reclamando. Trate de estudar que é a melhor coisa que você faz.
O dia está acabando. Está faltando um momento de lazer, não é mesmo? Ligue para um amigo. Convide-o para ir ao cinema. De repente rola um affair, já pensou? Seria ótimo para você. Ia ficar mais relaxada. Só não invente de querer namorar. Essa história de relacionamento sério dá muito trabalho. Casamento então, nem pensar! Você ainda tem muito que estudar, menina! Mestrado, doutorado, pós-doutorado. Já pensou em fazer um curso no exterior? Um sonho não é mesmo?! Esse papo de cachorros e crianças cabeludinhas só funciona em comerciais de margarina. Na vida real eles só dão dores de cabeça. Sem falar que custam caríssimo. Você não tem dinheiro nem para se sustentar, vai dar conta de uma casa? Acorda Alice! Esse não é nem de longe o País das Maravilhas.
Enfim... não quer chamar ninguém para sair, não chame. Vá para casa dormir, assistir televisão. O que não faltam são coisas para fazer. Dormiu? E sua casa, quem vai arrumar? Está uma bagunça! É por isso que você nunca encontra nada. E esse monte de roupa suja, quem vai lavar? Daqui a pouco você não vai mais ter roupas para sair. E não esqueça que neste final de semana tem prova de espanhol. Estude. E também não falte o curso de redação. Você só vive faltando. Está só jogando o seu dinheiro fora. E ainda fica dizendo que quer trabalhar a sua espiritualidade, que quer ser voluntária em algum projeto social. Ora, faça-me um favor. Só se o seu dia tivesse mais de 24 horas. Você não dá conta nem das suas obrigações...
Sete e trinta da manhã. Hora de acordar. E daí se sua bateria não terminou de ser recarregada? Dê conta de seu dia mesmo com a carga incompleta.
Obs: Foto do site: http://crocoecia.blogspot.com/2009/07/fantasias-femininas-diversas.html
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Então eu percebi que até para ser feliz é necessário coragem. Para sentir o frio na barriga e o vento entre os fios de cabelo é preciso antes ter a coragem de saltar. Saber a sensação de liberdade que há em morar sozinho não é possível sem antes deixar a casa dos pais. E assim é tudo nesta vida. Para se alcançar qualquer coisa é necessário abrir mão de outra. E quão árdua pode ser essa tarefa, meu Deus! Saber o que renunciar e quando pode ser mais difícil do que resolver uma questão de matemática do caos. (Sim, essa matéria realmente existe e - acredite - há pessoas que se dedicam a estudá-la). É... às vezes tomamos decisões erradas... Mas elas trazem de brinde a tal da "experiência". Outras, não temos outra opção senão seguir por um novo caminho. Nestes casos, só resta aceitar que a vida pode estar nos dando um "empurrãozinho". Seja como for, tenha coragem. Permita-se!
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Homens: tim tim!
Não sei se sempre tive sorte com os homens e por isso, sempre admirei o "men's styling of life" ou se, por admirar o "jeito homem de ser", acabei atraindo garotos bacanas para a minha vida. O fato é que - com exceção de um determinado moço que desde sempre eu já sabia que não valia a pena- todos os outros rapazes com quem eu já me envolvi afetivamente foram e são pessoas maravilhosas. Mas, pensando bem, essa admiração já vem de muito antes. Desde os tempos em que o papai lia historinhas para eu dormir e que nós ganhávamos os troféus de mais atrapalhados nas gincanas do jardim de infância, eu já era encantada pela proteção que eu encontrava em um colo masculino.
segunda-feira, 22 de março de 2010
Criança é ralado...
Um pouco antes de chegar à casa de meus tios, era possível avistar um pequeno parque repleto de brinquedos coloridos. Todas as vezes que o carro passava em frente, pedia para alguém me levar até ele. Cansada de esperar que alguém cumprisse a promessa e finalmente me levasse lá, elaborei uma estratégia para ir sozinha. Decorei o caminho do parque até a casa de meus tios. Contei o número de ruas, a quantidade de vezes que eu precisaria dobrar para a direita e para a esquerda. Quando todos estivessem distraídos, eu só precisaria fugir e fazer o caminho inverso. O plano era perfeito!
Esperei ansiosamente pelo momento ideal. Eu não lembro, mas devia estar com aquela carinha de criança quando está aprontando, mas ela devia ser tão constante naquele tempo que ninguém percebeu ou deu importância. Até que o instante certo chegou. Era por volta três horas. Todos já haviam almoçado e conversavam animadamente. Saí à francesa. Quando conquistei as ruas, porém, elas não eram bem como eu tinha memorizado. Eram maiores e eu já não sabia mais nem chegar ao parque, nem voltar para casa. Mas não me desesperei.
A esta altura, na casa de meus tios, alguém deu por minha falta. Ninguém havia me visto, então começaram a me procurar. Primeiro, reviraram a casa toda e, claro, não me acharam. Depois, perguntaram aos vizinhos. Nada. Os soldados da guarda também não sabiam informação nenhuma ao meu respeito e foi então que a operação de busca começou. Todos os soldados foram orientados a não deixar nenhuma criança sair dos limites da Base Naval. Cães farejadores foram colocados em meu rastro e helicópteros com lanternas de grande alcance percorriam cada esquina daquele local. (Tá bom, não foi tudo isso, eu confesso...).
Fui encontrada antes do final da tarde, ao lado de umas latas de lixo. É que eu, aos quatro anos de idade, cheguei à conclusão de que alguém - em algum momento daquele dia - iria àquele local jogar o lixo fora e me encontraria. E não é que eu estava certa?! Voltei para casa sã e salva e com uma ótima história para contar na segunda-feira para as minhas coleguinhas de jardim da infância.
Obs.: Foto tirada do site novo-mundo.org
quinta-feira, 11 de março de 2010
De volta ao jardim de minha infância
Levantei-me apressada – era incrível a semelhança! Ao descer da cama, tive a estranha sensação de que ela estava mais alta do que de costume; olhei para baixo e vi nos meus pés minha pantufa cor-de-rosa que não me servia há muitos anos. Corri assustada para o espelho e constatei minha suspeita mais absurda: eu realmente havia voltado a ser criança!
Desci as escadas correndo para ver meus pais. Eles estavam igualmente mais jovens, porém, como se não houvessem percebido o que acontecera, tomavam tranqüilos seu café-da-manhã . Perguntei a eles o que havia acontecido.
– Do que você está falando, princesinha? Tome logo seu café ou chegará atrasada na escola – disse com ternura minha mãe.
Ainda tentei explicar que já estava na faculdade, mas vi que seria inútil. Fui à escola, reencontrei meus amigos, professores.Tudo era tão fascinante! Estava tão feliz que nem me perguntava se era sonho ou realidade.
Ao anoitecer, retirei a pantufa cor-de-rosa e adormeci. Quando acordei, tudo havia voltado ao normal – era um sonho apenas! Mas a lembrança desse sonho fez renascer em mim a criança que um dia fui.
(20/03/2004)
Foto de Elena Kalis (http://www.elenakalisphoto.com/)
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
União
Estava decidida a ir. Mas no instante que as mãos de Midas dele seguraram o seu braço com firmeza, transformou-se em estátua. Deparou-se então com com o par de olhos negros.Ele agora já não tinha cativo apenas seu corpo, mas sua alma e pensamentos.Para onde ir? Não tinha mais casa nem rumo. Ele roubara todo o sentido da palavra 'pertecer' que ela até então conhecera. Já não sabia mais outro caminho senão aquele que convergia para ele.
Estava decidida a ficar. Também ela seria uma seguidora de Pã. Nos bosques, a vida assumiria outro significado. O que importava se os astros que regeram seus nascimentos continuavam os mesmos. Não era o Livre Arbítrio a força mais poderosa do Universo? O Dom Supremo aos humanos concedido? Que o Cosmos abençoasse aquela união ou ela seria abençoada por eles mesmos. Que ela durasse por quantos instantes que tivesse que durar. Que esses instantes somados fossem em uma vida inteira.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Mulheres (e Homens) Possíveis
MULHERES POSSÍVEIS...
'Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.
Sou a Miss Imperfeita, muito prazer.
Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana - e as unhas!
E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.
Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero.
Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora.
Você é, humildemente, uma mulher.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante.
Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável.
É ter tempo.
Tempo para fazer nada.
Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.
Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.
Tempo para sumir dois dias com seu amor.
Três dias.
Cinco dias!
Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.
Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.
Para engravidar.
Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada.
Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!
Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir.
Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo.
Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante'.
sábado, 19 de dezembro de 2009
O vulcão

quinta-feira, 26 de novembro de 2009
A violência do Tempo

Quando vejo a voracidade com que ele parece querer me devorar, tenho a sensação de que se eu não correr com todas as minhas forças ele irá me abocanhar e eu ficarei como Jonas, sozinha na barriga da baleia. Será mesmo que ele já não me engoliu? De repente ele já até mastigou minha horas destinadas ao por-do-sol, meus momentos de olhar estrelas na sacada, minhas longas conversas com Deus; eu é que ainda não me dei conta...
Se for assim, a faceta voraz que vejo não passa de uma máscara ilusória. Na verdade ele me traga assim... devagarinho. Faz-me acreditar que estou correndo dele quando, na verdade, estou correndo para ele, em direção ao seu enorme abismo. No precipício do Tempo não se despenca de uma vez, não. É mais parecido com a voragem de uma areia movediça. Seria o ele uma espécie de esfinge?
- Se és assim, Tempo, então eu me recuso a te decifrar. Devora-me! Eu te provoco.
Mas ele permanece calado. Teria eu desvendado um de seus incontáveis enigmas?
domingo, 15 de novembro de 2009
XIII Feira Pan- Amazônica do Livro
A Feira do Livro esse ano está imperdível! Até serviço de bíblias delivery você encontra. E bíblias personalizadas. Tinha para crianças, para mulheres, para idosos, adolescentes, pré-adolescentes, pré-pré-adolescentes... Alias, de cada quatro estandes, cinco eram de bíblias.
sábado, 24 de outubro de 2009
A mulher em frente ao espelho
Gostou de ter cabelos cacheados e não lisos. Orgulhou-se da história que eles contavam porque eram afro e, ao mesmo tempo, eram europeus; quiçá também indígenas. Ficou satisfeita em não ser loira e de não ter a pele clara, pois também sua pele era herança de antepassados de múltiplas nacionalidades. Sua cor era, portanto, matiz. Aliás, sua pele, de tanto ter histórias, parecia ser em braile. Isso também agora começara a admirar.
Não teve pudor ao apreciar seu corpo todo em frente ao espelho. Gostou de seus seios pequenos, de suas ancas e coxas. Era tudo natural e seu: ela já não tinha vergonha de ser.
Estava feliz por ser mulher e não homem pois acreditava que ser do sexo feminino lhe conferia uma infinidade de sentidos antagônicos e complementares. Significava ser, simultaneamente, submissa e insubmissa, forte e delicada, sofisticada e agreste.
Descobriu que sua beleza não estava na maquiagem, nos acessórios ou nas roupas que usava. Se assim fosse, o belo estaria fora dela. Mas não estava. Era linda pelo brilho de seus olhos, mesmo quando emoldurados por olheiras. Formosa, porque tinha o sorriso fácil e simplicidade nos gestos. Não era Narcisa, era Mulher e estava diante do espelho.
domingo, 18 de outubro de 2009
As duas rainhas
Las dos Fridas (Frida Kahlo)Nosso corpo é uma terra governada por duas rainhas: a Razão e a Emoção. E, como em todo lugar onde existem duas regências, há uma disputa constante pelo poder.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
DAS VANTAGENS DE SER BOBO

- O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."
- Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
- O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem.
- Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.
- O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver.
- O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes o bobo é um Dostoievski.
- Há desvantagem, obviamente: Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era a de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.
- Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.
- O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.
- Aviso: não confundir bobos com burros.
- Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a frase célebre: “Até tu, Brutus?"
- Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
- Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu.
- Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
- O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
- Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.
- Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida.
- Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
- Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita o ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
- Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cimas das casas.
- É quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Repensei nas últimas vezes que me senti boba. Outro dia quase chorei ao ver a foto da "mulher da página 194" (ao lado), que para mim virou a menina do buchinho. Ela estava linda e sorridente exibindo sua pancinha. Fiquei tão feliz! Até que enfim uma mulher próxima da realidade teve espaço em uma revista! Não consigo entender o motivo de precisarmos comprar sempre imagens de mulheres com corpos perfeitos, todos trabalhados na academia (como já diria o Cristian Pior). Eu queria tanto ver uma mulher de verdade nestas revistas. Sim porque além de bonita, nos é passado que a mulher contemporânea tem ainda de ser inteligente, elegante, boa mãe, competente, culta, divertida. Vem cá, alguém conhece uma mulher assim? Até existe, mas agora vamos começar a enumerar seus defeitos? Por que tanta intolerância com a nossa normalidade? (Sejamos justas: essas cobranças todas também se estendem aos homens, mas talvez eles se importem menos com elas do que nós).
Outra coisa que me fez sentir boba nesses últimos tempos foi a minha reação ao ler uma entrevista com a Camila Pitanga (Sim! Uma entrevista com uma atriz global. Sim! Na Revista da Tv!) em que ela falava sobre os "homens invisíveis". Ela contava que construiu a sua personagem com base num estudo de um psicólogo chamado Fernando Braga da Costa. Na matéria, Camila dizia que: "A visão humana fica prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho onde enxerga-se somente a função e não a pessoa". E eu fiquei pensando... e pensando... e pensando. É verdade. Como reparamos pouco nas pessoas... E como é chato assumir essa indiferença sem grandes perspectivas de mudança.
É... pelo visto não é tarefa das mais difíceis me sensibilizar.... Uma pessoa 'esperta' dificilmente se emocionaria com uma cena de novela, uma criança na rua, um cachorrinho abanando o rabo. Eu confesso: sou uma boba mesmo. E o pior é que faço questão de ser assim. Não tenho pretenção nenhuma de ser perfeita, a melhor em tudo. Já parou para pensar que talvez nós (humanos) estejamos olhando para o lado errado, gastando nossas energias com coisas que não são tão importantes? Não confunda: não é porque sou boba que tenho que ficar levando porrada, não gosto de conformismo. Mas não é contraditório dizer que aquela história de oferecer o outro lado da face faz sentido. Porque o amor também é uma forma de resistência. Acredito que, quase sempre, é possível ser gentil. E a gentileza é também uma arma. E sim, há vantagem em dar, há vantagem em 'gastar' tempo com quem precisa (seja uma pessoa passando fome ou mesmo a sua própria avó), há vantagem em falar besteiras e rir, há vantagem em acreditar e em sentir. Sentir pelo outro também: chama-se compaixão. (Algo que não tem nada a ver com pena, por favor). Ah... eu sei que esse 'post' está, digamos, bem melosinho. Mas uma das vantagens de ser boba é ser capaz desses excessos de amor, que hoje me levaram a escrever um texto como este.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Como as mulheres se comportam após o fim de um relacionamento
A primeira delas é que a melhor amiga estará invariavelmente desocupada no segundo seguinte ao do rompimento. Neste instante não importa onde a comparsa mora, em que ela trabalha ou a que horas tenha ocorrido o término: ela irá atender ao telefone antes que ele toque duas vezes. Uma mulher e sua melhor amiga costumam ter um grau de ligação cósmica que é superior às leis da probabilidade. Isso garante que, menos de uma hora após o fim do relacionamento, a cúmplice saiba de cada vírgula que cada um falou (de acordo com a versão da mulher, é claro) durante a fatídica discussão.
A segunda é o Brainstorm de pensamentos suicidas. Não importa o quanto ela seja centrada, cedo ou tarde vai ter vontade de cortar os pulsos. Não só isso. Vai querer se jogar do prédio, tomar todo o estoque de remédios para dormir da farmácia mais próxima de sua casa, pensar em ingerir todos os perfumes que encontrar pelo quarto, pular na frente do primeiro Distrito Industrial-Iguatemi. Todas estas ideias, porém, surgem absolutamente do nada e geralmente vão para lugar nenhum. Uma hora ou outra a esperta acaba se tocando que homem nenhum na galáxia merece esse desespero todo.
Logo em seguida vem o momento das promessas que jamais serão cumpridas. Vale prometer que nunca mais vai amar de novo, que esta foi a última vez que se meteu com um homem comprometido, que da próxima vez não será mais tão ingênua, que vai virar lésbica, que vai entrar para um convento, etc. Na verdade, as promessas em si são o que menos importam. No fundo as mulheres sabem que não vão conseguir cumprir mesmo... O importante é a atitude, entende? O glamour de passar a mão embaixo dos olhos e dizer qualquer coisa em tom decidido: “A partir de hoje blá blá blá”.
Toda mulher também passa pela fase dos distúrbios do sono. Se você é do sexo feminino e me disser que após o termino de um namoro o seu sono se mantêm inalterado ou é porque você deve ser descendente do boneco de lata do Mágico de Oz ou porque deve ser parente da Paola Bracho. É impossível. Ou você tem insônia, ou acorda no meio da madrugada e não consegue mais dormir, tem pesadelos, dorme demais, sei lá, mas em hipótese alguma suas noites permanecem as mesmas. Nestas horas, uma boa dica é ficar repetindo como um mantra “vai passar, vai passar”. Pode até demorar, mas passa. Outro conselho de ouro é manter o telefone a quilômetros de distância. Porque é exatamente nessa hora que vai bater uma cuíra irresistível de ligar para aquele canalha que te trocou por aquela garotinha mais nova. Não ligue!
Mas a pior parte mesmo é a dos vícios e das compulsões. Quando a frôzinha percebe que aquele aperto no peito, aquela sensação de sufocamento, aquela angústia que as vezes chega até a vir acompanhada de ânsia de vômito, não vai passar tão cedo, ela apela para forças externas. Este é um momento crítico que deve ser supervisionado pelos amigos. As consequências desta etapa podem ser gravíssimas. Quando a pessoa roe todas as unhas ou se atola nos chocolates, tudo bem. Mas e quando ela resolve estourar os limites do cartão de crédito ou beber até ser levada por uma ambulância da Unimed? Pânico total.
A quinta parte é meio facultativa : é o momento Amy Winehouse. Todas nós, em algum momento desse processo, vamos sonhar em quebrar as xícaras dele, arranhar os discos, etc, que é pra ver se ele volta, que é pra ver se ele vem, que é pra ver se ele olha pra nós, como diz naquela música da Adriana Calcanhotto. (Mas quem está a fim de fazer confusão nem deve se dar ao trabalho de ouvir a música. Aquela vozsinha de sussurro dela, aquela melodia mansa acabam sendo meio terapêuticas. Vai dando uma melancolia, uma fraqueza e a gente termina desistindo). Nem todas as mulheres, porém, conseguirão resistir a estes impulsos. As mais corajosas irão chutar o pau da barraca e armar um barracão. Elas poderão virar a personificação do Caos e da Barbárie. Aí é piriguete voando para um lado, ex-namorado correndo para o outro, um escandalo! Literalmente!
Por último, não importa o quão feia uma mulher possa ser: ela sempre terá um amigo adepto aos ensinamentos de um sábio filósofo brasileiro chamado Fábio Júnior. É, aquele que costumava dizer: “encoste a sua cabecinha no meu ombro e chora”. Ô minha cara amiga, não tente se enganar: se o colega se propôs a escutar cada detalhe da sua análise – quase semiótica, diga-se de passagem – sobre o seu ex-parceiro, este é um baita sinal de que ele não está bem intencionado. Mas isso pode não ser ruim. Muito pelo contrário. Pode, inclusive, ser nesse momento que todas as promessas feitas no item III poderão ir por água abaixo. Graças ao Cosmos, né meu bein?! Ou você vai querer fazer parte de uma das raças que deveriam ser eliminadas do planeta:a de indivíduos amargos, mal comidos?! Bem... mas este já é assunto para outro ‘post’. Hoje eu fico por aqui. Um beijo! E não esqueçam: uma hora a dor passa. É... as vezes demoooora...mas passa, juro!
OBS.: Antes que me perguntem: Não, eu não pensei em me suicidar; e não, o Gabriel não me trocou por uma garota mais nova. Ele, por sinal, é uma das pessoas mais fascinantes que eu já conheci na vida. Para quem não percebeu, este texto é uma brincadeira, uma sátira sobre o comportamento feminino, e não uma autobiografia.














